Facção do Rio impõe comando remoto sobre Cabedelo e aprofunda crise de segurança na Paraíba
Investigações da Polícia Federal apontam infiltração do Comando Vermelho em estruturas públicas e monitoramento clandestino da cidade por criminosos instalados no Complexo do Alemão
A cidade de Cabedelo, no litoral da Paraíba, tornou-se alvo de uma complexa estrutura de domínio criminoso operada à distância pelo Comando Vermelho, facção instalada no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. A mais de dois mil quilômetros de distância, criminosos passaram a monitorar a rotina da cidade, interferir na vida da população e, segundo investigações, infiltrar-se em setores estratégicos da administração pública municipal.
A Polícia Federal e o Ministério Público da Paraíba já deflagraram mais de dez operações para combater esquemas de corrupção e crime organizado no município, que possui pouco mais de 60 mil habitantes. As investigações revelam que a facção criminosa consolidou influência territorial e social em diversos bairros, impondo medo aos moradores e criando um ambiente de silêncio e insegurança.
Conhecida pelas praias e pela intensa atividade portuária, Cabedelo convive hoje com uma realidade marcada pelo abandono urbano e pela presença ostensiva do crime. Em várias regiões da cidade, moradores denunciam ausência de coleta de lixo, precariedade no asfaltamento e ruas esvaziadas pelo temor constante da violência. Muitos evitam conceder entrevistas ou comentar o assunto por receio de represálias.
O delegado regional de Polícia Judiciária da Polícia Federal na Paraíba, João Marcos Gomes Cruz Silva, afirmou que o município enfrenta um “colapso institucional”. Já o procurador-geral de Justiça do Ministério Público da Paraíba, Leonardo Quintans, alertou que a população passou a viver sob influência de um “poder paralelo”, que restringe a liberdade dos cidadãos e amplia o controle criminoso sobre a cidade.
Segundo as apurações, integrantes do Comando Vermelho acompanham a movimentação em Cabedelo por meio de um sistema clandestino de videomonitoramento controlado diretamente do Rio de Janeiro. Áudios interceptados pelas autoridades mencionam a existência de dezenas de câmeras espalhadas em pontos estratégicos do município. Para os investigadores, trata-se de uma espécie de “home office do crime organizado”, permitindo que líderes da facção acompanhem operações policiais e a circulação de rivais em tempo real.
Entre os nomes mais citados nas investigações está o de Flávio de Lima Monteiro, apontado como uma das principais lideranças criminosas ligadas ao Comando Vermelho no Nordeste. Natural da Paraíba, Fatoka teria iniciado sua trajetória na facção Nova Okaida antes de fundar a Tropa do Amigão, braço aliado do grupo criminoso carioca. Contra ele, existem ao menos 13 mandados de prisão relacionados a tráfico de drogas, homicídios e organização criminosa.
Fatoka chegou a ser preso no Presídio de Segurança Máxima da Paraíba, mas fugiu em setembro de 2018 durante uma fuga em massa que envolveu 92 detentos e o uso de explosivos. Recapturado posteriormente, obteve liberdade monitorada por tornozeleira eletrônica em 2022. No mesmo dia da instalação do equipamento, rompeu o dispositivo e fugiu novamente para o Rio de Janeiro, de onde, segundo a polícia, continua comandando ações criminosas na Paraíba.
Áudios interceptados revelam planos de expansão territorial da facção para bairros de João Pessoa, incluindo o Bessa. Nas gravações, criminosos utilizam o termo “ponteamento” para se referir ao mapeamento de áreas dominadas por grupos rivais e à preparação para confrontos armados. De acordo com o Ministério Público, a estratégia garante maior controle territorial e segurança operacional para o grupo criminoso.
Nas ruas de Cabedelo, pichações associadas ao Comando Vermelho e à Tropa do Amigão evidenciam a disputa pelo domínio local. Vídeos obtidos durante as investigações mostram homens armados circulando por áreas residenciais e efetuando disparos para o alto, enquanto moradores convivem com o medo constante de serem atingidos pela violência. Em um dos episódios, um morador registrou o carro da esposa perfurado por tiros e fez um apelo público para que inocentes fossem poupados.
O sistema clandestino de monitoramento também preocupa as forças de segurança. Segundo o tenente-coronel Luiz Antônio, criminosos escondem câmeras em postes, árvores, fiações elétricas e até dentro de tubos metálicos pintados para dificultar a identificação. Durante operações recentes, policiais militares localizaram diversos equipamentos utilizados para vigiar a movimentação das forças de segurança e garantir o controle territorial da facção sobre a cidade.

