Terça, 14 de Abril de 2026
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Em Foco Economia

Proposta de redução da jornada de trabalho pode impactar 31,5 milhões de trabalhadores no Brasil

Estudo aponta efeitos econômicos relevantes, com pressão sobre pequenas empresas e riscos de aumento do desemprego

Por J.C Martins
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José Carlos Martins Júnior

J.C Martins

ararinhabruh@gmail.com
João Pessoa-PB

| 14/04/2026 22:49
Foto: Poder360
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A possível extinção da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de trabalho no Brasil podem afetar diretamente cerca de 31,5 milhões de trabalhadores formais, segundo estudo do Instituto Esfera. Intitulado “A Reconfiguração da Jornada de Trabalho no Brasil: Perspectivas e Impactos Socioeconômicos”, o levantamento revela que a mudança, atualmente em debate no Congresso Nacional, pode gerar impactos expressivos tanto no mercado de trabalho quanto na estrutura produtiva do país.

De acordo com o estudo, coordenado por Fernando Meneguin, a proposta incide principalmente sobre trabalhadores com jornadas superiores a 40 horas semanais — maioria no mercado formal. Atualmente, a jornada de 44 horas semanais é a mais comum no Brasil, abrangendo cerca de 74% dos vínculos formais, conforme dados baseados em levantamentos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). A proposta em análise prevê a redução do teto constitucional para até 36 horas semanais, o que exigiria uma ampla reorganização das escalas de trabalho.

O impacto tende a ser mais intenso nos setores de comércio e serviços, que concentram a maior parte dos trabalhadores com jornadas prolongadas. No varejo, cerca de 93% dos contratos formais ultrapassam as 40 horas semanais, enquanto no atacado esse percentual chega a 92%. Ao todo, o comércio responde por mais de 10 milhões de empregos formais no país, operando, em muitos casos, com funcionamento contínuo, inclusive aos fins de semana — o que aumenta a dependência de modelos como a escala 6x1.

O perfil dos trabalhadores mais afetados também chama atenção. Segundo o estudo, a média salarial daqueles que cumprem jornadas de 44 horas semanais é de aproximadamente R$ 2.627, com predominância de pessoas de menor renda e qualificação. Mais de 83% dos trabalhadores com ensino médio ou menos estão inseridos em jornadas superiores a 40 horas, além de haver maior presença de mulheres em funções com carga horária extensa e remuneração mais baixa.

Embora a redução da jornada possa representar ganhos em qualidade de vida e bem-estar, o levantamento aponta que esses mesmos grupos estão mais expostos a riscos de ajustes no mercado, como demissões. Isso porque empresas podem enfrentar dificuldades para absorver os custos adicionais decorrentes da mudança, especialmente em setores com menor margem de lucro e alta dependência de mão de obra.

O estudo também resgata a última grande alteração na jornada de trabalho no país, promovida pela Constituição de 1988, que reduziu o limite semanal de 48 para 44 horas. À época, segundo o documento, houve um aumento progressivo da taxa de desemprego nos anos seguintes, além de crescimento significativo da informalidade, que chegou a atingir cerca de 60% do mercado de trabalho.

Para os pesquisadores, o contexto atual apresenta desafios adicionais. A economia brasileira enfrenta estagnação de produtividade e gargalos na qualificação da mão de obra, fatores que podem dificultar a adaptação das empresas a uma jornada reduzida. Isso também implicaria maior custo com treinamento e menor capacidade de absorção de novos trabalhadores.

Do lado das empresas, especialmente as de pequeno porte — responsáveis por cerca de 52% do emprego formal no país —, o estudo projeta aumento da massa salarial, pressão sobre os preços ao consumidor e maior dificuldade de adaptação. Negócios menores tendem a ter menos recursos para contratar novos funcionários ou investir em tecnologia que compense a redução de horas trabalhadas.

No Congresso Nacional, o debate gira em torno de propostas como a PEC 8/2025, que sugere a implementação de uma jornada de 36 horas distribuídas em quatro dias por semana, além de alternativas que preveem transições mais graduais. Especialistas apontam que a forma de implementação será determinante para mitigar impactos negativos.

Entre as medidas sugeridas estão a adoção de uma transição progressiva, o fortalecimento da negociação coletiva por setor e a criação de políticas de compensação voltadas especialmente para pequenas empresas. O desfecho da discussão deverá influenciar diretamente a dinâmica do mercado de trabalho brasileiro nos próximos anos.

 
Veja Paraíba com informações do Poder360.

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